O rei Sergius teve um primogênito, Sergius Magnus II, um jovem muito valente e aventureiro, que tinha uma imensa vontade de percorrer o mundo, compartilhar informações e, ao mesmo tempo, saber mais sobre novas culturas, vendo de perto aquilo que antes só conhecia como lendas... As estradas daquela época medieval, para os jovens, exerciam a mesma atração que a internet exerce nos tempos atuais, pois era no encontro das várias rotas entre os reinos onde a informação fluía.
O valente príncipe sempre pedia ao pai para deixar-lhe transpor os portões de seu reino e conhecer novas culturas, pois a sua sede de contar ao mundo a felicidade que imperava em Happyland era muito grande. O que o pai nunca lhe contara é que, em seu reino, compartilhar a felicidade só era possível porque as desigualdades sociais foram banidas e ali todos eram livres, prosperavam com o suor do seu trabalho e provavam uma paz de espírito inexistente em outras localidades. Os cidadãos daquela feliz cidade sabiam que, se deixassem a praga do egoísmo voltar a infectar os corações de seu povo, a inveja logo estaria de volta ao próspero reino.
Um belo dia, o impetuoso príncipe cansou de esperar a aprovação paterna, pegou as suas coisas rapidamente e, aproveitando uma distração dos guardas do castelo de Happyland, conseguiu se misturar à plebe. Seu reino estava em festa, celebrando uma conquista que trouxera muito orgulho a todos os cidadãos ali residentes. Aquela era a oportunidade ideal, ao jovem e valente príncipe, para escapar da ostensiva vigilância de seu austero pai e finalmente iniciar a sonhada aventura... Uhuuuuu! Nada mais poderia detê-lo a partir em peregrinação pelas estradas da informação!
Um pouco antes de ultrapassar as barreiras que o deixariam sair de sua feliz cidade, o jovem encontrou um burrinho falante que lhe advertiu: "Ei, meu valente príncipe! Você não pode sair por aí gritando a sua felicidade, pois a inveja tem sono leve!". O príncipe demonstrou não ter gostado da intromissão do burrinho, dizendo-lhe em tom filosófico: "No meu reino impera o costume de compartilhar a alegria, pois assim as pessoas ficam mais felizes com você!". Diante de tal resposta, não coube outra coisa ao burro senão abaixar as orelhas, deixando o príncipe seguir pelas estradas feliz, compartilhando sua alegria.
O burrinho vinha de outro reino e, apesar do jeito intrometido, ele queria bem às pessoas e também gostava muito de compartilhar a felicidade com todos. Ao advertir o valente príncipe, ele só queria que a sua felicidade não fosse saqueada fora dos portões do reino, onde imperavam a inveja, o apreço ao alheio e outras formas decorrentes do egoísmo humano.
Apesar da forma de burro, aquele quadrúpede conhecia bastante da maldade humana e suas mazelas. Ele sabia que os invejosos de outros reinos tinham inventado o que hoje se chama de "engenharia social", e que o príncipe estava correndo o risco encontrar no caminho pessoas que ouviriam as suas histórias com o único propósito de encontrar uma maneira de sabotar a felicidade em Happyland. Por isto ele o advertiu...
Antes de mudar para aquela feliz cidade, após perder o seu emprego no cinema por causa de um ogro que resolveu encerrar a carreira, o burrinho percorreu um longo caminho antes de chegar em Happyland. Na estrada, ele ouvira o mesmo conselho de um velho sábio, o qual também lhe advertiu sobre as amizades por meio de uma historinha:
Caro burrinho, conta a lenda de nossos ancestrais que havia um passarinho muito feliz e teimoso, que resolveu sair pela floresta voando e cantando, pois percebia o quanto o seu canto era, para muitos, motivo de encanto... Alertado pela mãe de que não deveria se afastar do ninho, pois o inverno estava chegando, o passarinho não ligou para a advertência e saiu voando em direção à floresta.
Com alguns dias mata adentro, aquela frágil ave foi surpreendida por uma mudança climática e, cansado de tentar enfrentar os ventos frios, caiu da árvore na qual se protegia e logo foi coberto pela neve. O passarinho pensou: "Porque não ouvi a minha mãe? Agora vou morrer de frio!". Se não bastasse o seu drama pessoal, um cavalo que passava por ali ainda deu um jeito de satisfazer as suas necessidades em cima do passarinho, deixando-lhe coberto de estrume!
O passarinho praguejou a sua sorte a noite inteira, mas foi protegido do frio que lhe abatera pelo calor do estrume do animal. Ao acordar, percebeu que ainda estava vivo graças ao que, na noite anterior, parecera-lhe mais um golpe de azar. Feliz com isto, colocou-se a cantar ainda mais alto e bonito a sua felicidade, ao ponto de atrair a atenção de um gato que por ali passava...
Vendo o passarinho cantando, o gato aproximou-se e disse: "Ei, rapaz! O que você faz aí, todo coberto de merda?". O passarinho contou-lhe a história e o gato se prontificou a ajudar. Ao ser retirado do estrume e limpo com um pouco de água quente que o gato trazia em sua bagagem, o feliz passarinho mal teve tempo de agradecer tal gentileza... pois foi engolido pelo gato!
Meu amiginho, hoje você está prestes a entrar no reino de Happyland, onde as mazelas da alma humana foram banidas por um bondoso e sábio rei... Porém, ao sair novamente por aqueles portões e se aventurar pelas estradas de outros reinos, onde a maldade pode imperar, você deve ser prudente e lembrar da história do passarinho, NUNCA esquecendo da moral da mesma: Quando você estiver feliz após sair da merda, não fique cantando a sua sorte por aí... Nem sempre quem tem põe na merda é seu inimigo e, da mesma maneira, nem sempre quem te tira dela é seu amigo!
Filosófico, não?



